Estudo desvenda por que clones de alto rendimento entregam tão pouco látex
Seringueira (Hevea brasiliensis) — Quem investiu na árvore como “poupança verde” vem descobrindo, só depois de uma década, que a sangria rende bem menos do que o prometido. Uma pesquisa da Unicamp e do Instituto Agronômico (IAC), publicada recentemente na revista The Plant Genome, mostra que o erro está na escolha silenciosa do porta-enxerto, responsável por drenar produtividade e, consequentemente, receita.
- Em resumo: a raiz que sustenta o clone pode derrubar ou multiplicar o volume de látex colhido.
Raiz do problema: porta-enxerto interfere na expressão genética
Ao analisar o transcriptoma de diferentes combinações de enxerto e porta-enxerto, os cientistas mapearam milhares de genes cuja ativação muda conforme a dupla escolhida para o viveiro. Entre eles estão genes ligados diretamente à produção de látex e a vias metabólicas, como a do jasmonato, hormônio crucial em situações de estresse hídrico. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a baixa eficiência nacional ajuda a explicar por que o Brasil responde por menos de 2 % da borracha natural do mundo e ainda precisa importar para atender a indústria de pneus, luvas e equipamentos médicos.
“Quando o produtor compra a muda, pede o clone, mas ignora o porta-enxerto. O prejuízo só aparece 10 anos depois, quando ele percebe que extrai muito menos látex do que o potencial da planta”, alerta a professora Anete Pereira de Souza, da Unicamp.
Impacto direto no bolso: colheita menor, prazo de retorno maior
Em média, um hectare bem manejado deveria render cerca de 2,0 toneladas de borracha seca por ano. Se o porta-enxerto for inadequado, esse número pode cair quase pela metade, prolongando o retorno do investimento em anos e sacrificando margens num mercado já pressionado pela concorrência asiática. O IAC prepara agora uma cartilha com as melhores combinações clonais, enquanto pesquisadores defendem que viveiristas informem a procedência da raiz na nota fiscal — medida simples que evitaria milhões em perdas futuras.
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Crédito da imagem: Foto: Breno Lobato/Embrapa